Stop Killing Games: seria este, um legítimo movimento em prol…

… dos jogos eletrônicos? Há algumas semanas, tenho acompanhado as discussões que ocorreram em torno do fim da mídia física para os consoles de jogos. O estopim se deu a partir do momento em que a Sony anunciou que a partir de 2028, não irá mais produzir as mídias e que a distribuição dos jogos passaria a ser feita de forma exclusivamente eletrônica, através da sua loja online PlayStation Store. Além de causar uma enorme insatisfação por parte dos gamers (pois muitos deles curtem adquirir as mídias e ostentar uma enorme coleção de jogos), ainda temos que levar em consideração as possíveis implicações jurídicas e legais…

Embora a indústria há anos tenha gradativamente migrado para o formato digital, algumas empresas tomaram algumas decisões questionáveis em relação ao acesso de determinados títulos. O caso mais notório foi “The Crew”, um jogo de corrida que apesar de suportar o modo multiplayer, também possui um modo singleplayer que não depende de conexão para funcionar. A Ubisoft encerrou o suporte, desligando os servidores que mantinham o jogo “funcionando”, independente dos jogadores terem adquirido a sua cópia em formato físico ou eletrônico. Esta medida resultou em uma revolta generalizada e estabeleceu uma série de questionamentos sobre a venda de jogos. A partir daí, nasceu o movimento Stop Killing Games.

O principal objetivo deste movimento é combater as ações que tem como o objetivo impossibilitar a utilização dos jogos, em vista da adoção de medidas que impedem a sua execução. Dentre eles, está a remoção dos jogos no catálogo por parte das lojas onlines, que os tornam indisponíveis para baixar (mesmo já tendo adquirido a licença de uso). Já os jogos multiplayers), em geral eles se tornam inúteis sem estabelecer conexões com os servidores oficiais. Por isto, o Stop Killing Games sua força de mobilização. O movimento não pede que empresas mantenham servidores para sempre, mas defende um conjunto de princípios simples…

Dentre eles, está a obrigação dos jogos vendidos (ou licenciados) serem mantidos em pleno estado funcional, além de não depender de nenhuma conexão com os servidores de empresas para funcionar. Inclusive, esta regra também vale para jogos que possuem microtransações (ainda que os conteúdos adquiridos não estejam mais disponíveis). Por fim, nenhuma destas garantias pode ser anulada por um contrato de licença de uso (obscuro, extenso e escrito com letras miúdas) que ninguém lê. Formulado desta maneira, a solicitação soa menos como capricho de nostálgico e mais como uma reivindicação básica de proteção ao consumidor.

Se “essa onda” vai pegar? Bem: contrariando as expectativas dos próprios idealizadores, a iniciativa conseguiu obter uma considerável quantidade de assinaturas válidas na Europa, número suficiente para obrigar uma resposta formal da Comissão Europeia. No Reino Unido, uma petição paralela também superou o limiar necessário para provocar debate parlamentar, e nos Estados Unidos a discussão já chegou a avançar em assembleias estaduais, como a da Califórnia. Diante da pressão, algumas empresas começaram a ceder pontualmente: a própria Ubisoft, alvo do caso que deu origem ao movimento, acabou lançando atualizações que tornam “The Crew 2” e “The Crew Motorfest” jogáveis offline, um recuo que o próprio Stop Killing Games credita à mobilização iniciada ainda em 2024.

Ainda é cedo para dizer se estas vitórias pontuais vão se transformar em lei de fato, ou se ficarão registradas apenas como gestos de boa vontade corporativa diante de uma crise de imagem. Mas o Stop Killing Games já conseguiu algo que vai além de qualquer texto legislativo: obrigou a indústria a admitir publicamente, que vende produtos que podem “deixar de existir” quando ela quiser. Nesse contexto, o fim da mídia física (e consequentemente, do colecionismo) e a concentração das vendas em poucas lojas digitais, deixam de ser eventos separados e passam a ser vistos como partes do mesmo movimento, no qual o jogador compra cada vez mais e possui cada vez menos.

Pois se continuar assim, nem sequer também seremos donos dos hardwares… &;-D

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